evolução do desenho tipográfico

Viagens, exposições, arte… são fontes de inspiração, não é mesmo?
E quando isso tudo se junta ao acaso, torna-se uma surpresa maravilhosa. Pois foi o que aconteceu comigo, no início desse mês, numa viagem à Itália: num passeio casual, entrei no Palazzo della Pilotta, em Parma, e dei de cara com isso:

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Eram letras Bodoni, em grandes proporções, esculpidas em ferro. Uma exposição de Alberto Allegri, Scolpire in Bodoni, coisa linda! Mas esse era só o começo, a “porta de entrada” para o que vinha pela frente.

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A exposição La fabbrica del libro perfetto, de Bodoni, foi uma bela surpresa! Nela, estavam expostos os originais do processo de criação e confecção de livros feito por Bodoni. Havia rascunhos de fronstispícios, desenhos de letras, provas de emendas (parecida com as nossas), tudo feito à mão por Bodoni. Não faltaram os vários tipos móveis nas devidas caixinhas, os instrumentos de corte, dobra, impressão. E, por fim, os livros impressos lindamente.

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Esse mergulho na tipografia me faz retomar aqui no blog um pouco da história do desenho tipográfico:

Após longos anos de predominância do estilo gótico na escrita, o gravador de tipos francês Nicolas Jenson (c.1420-1481), instalado em Veneza, criou uma família tipográfica romana inspirada nas maiúsculas romanas e nas minúsculas carolíngias. Batizado de Jenson, esse tipo apresenta perfeita legibilidade e serviu de exemplo para muitos tipógrafos que surgiram depois, como Claude Garamond, William Caslon e Willian Morris. Os desenhos que surgiram sob sua influência são chamados “tipos venezianos”.

Também em Veneza, dando continuidade ao importante trabalho estilístico de Jenson na história da tipografia, o impressor Aldo Manuzio (1449-1515) aperfeiçoou os desenhos romanos tipográficos com suas exigentes e minuciosas preferências de forma, junto com talentosos colaboradores, como Francesco Griffo (c. 1450-1518), joalheiro e puncionista bolonhês. Tido como um perfeito gravador de tipos, Griffo desenvolveu a maior parte de seu trabalho na casa de Aldo Manuzio.

Em 1494, Aldo Manuzio criou o tipo itálico, um desenho cursivo da letra romana. Esse projeto, de cunho comercial, apresentava um caractere econômico e, portanto, grande aproveitamento do espaço no papel. Inicialmente, não existiam as maiúsculas itálicas. As minúsculas itálicas eram usadas para compor o texto inteiro, sem a combinação com as romanas redondas.

Na França, na “idade de ouro da tipografia”, o tipógrafo Claude Garamond (1490-1561) teve grande destaque com seus tipos perfeitos, denominados “antigo romano”. Tidos como derivados dos tipos que Francesco Griffo talhou para Aldo Manuzio em Veneza, o desenho de Garamond reúne importantes características tipográficas: legibilidade, elegância e simplicidade.

Os tipos gravados por Garamond atingiram grande sucesso e espalharam-se por toda a Europa, como referência tipográfica. Seus desenhos influenciaram diversas interpretações de novas famílias. Tipógrafos como Plantin, Elzevir, Van Dijck e Granjon desenvolveram tipos notáveis com alguma variação, mas semelhantes ao de Garamond, para abastecer o mercado. Surgiram também muitos imitadores que alteraram o desenho original de Garamond com tipos sem qualidade.

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Na Inglaterra, destacou-se o gravador e tipógrafo William Caslon (1692-1766), que criou, adotando medidas e proporções do antigo estilo holandês, uma família tipográfica cujo desenho das formas das letras não possuía proporções perfeitas individualmente, mas em conjunto, numa composição de texto, eram harmônicas. A primeira mostra do tipo chamado Caslon aconteceu em 1734 e tornou–se o primeiro grande tipo inglês.

O também inglês John Baskerville (1706-1775) desenhou, em 1754, um tipo genuíno, claro e altamente elegante: o estilo neoclássico, que posteriormente foi importado pelos Estados Unidos. Baskerville apontou novas preocupações tipográficas, como a absorção da tinta no papel para facilitar a impressão nítida e brilhante e a preocupação com a entrelinha.

Seguindo as pegadas de Baskerville, o italiano Giambattista Bodoni (1740-1813), célebre tipógrafo do século XVIII, criou o estilo romano moderno na Itália, que dominou por completo toda a Europa. Os tipos de Bodoni apresentam grande contraste entre as hastes e as serifas, com traços uniformes e geométricos.

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A partir da Revolução Industrial, ainda em meados do século XVII, a tipografia passou a ter foco mais comercial. Criaram-se letras com grandes contrastes, inversão de contrastes, serifas grossas. Esses tipos decorativos eram usados, misturados, em cartazes publicitários com grandes títulos.

Por volta de 1890, iniciou-se a retomada das letras sem serifa na Alemanha, utilizadas em peças publicitárias. Um exemplo dessa letra é a Monotype Grotesque.

O desenho de uma letra sem serifa geométrica, mais delicada do que a Grotesque alemã, surgiu em meados de 1920 e tornou-se influência decisiva em movimentos artísticos como o dadaísmo, o futurismo, o construtivismo e a Bauhaus. Nesses movimentos, o uso de tipografias em tamanhos grandes e com formas geométricas era uma maneira de transgredir o convencional.

O desenho da Futura, criada pelo alemão Paul Renner (1878-1956), em 1927, é um exemplo de tipografia muito utilizada nessa época. Desenhada sob princípios rigidamente geométricos, inspirados na Bauhaus, tornou-se muito popular no design gráfico e na publicidade. Empresas como Volkswagen e Shell, por exemplo, fazem uso intenso dessa fonte. O diretor de cinema Stanley Kubrick também adota essa família tipográfica para a abertura de vários de seus filmes.

Entre 1920 e 1950, para acompanhar a trajetória comercial da tipografia, as fundições tipográficas, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, investiram em designers pioneiros como Eric Gill, Adrian Frutiger e Jan van Krimpen para desenvolver novos tipos e redesenhar tipos históricos.

Discípulo do renomado tipógrafo Edward Johnson, o inglês Eric Gill (1882-1940) foi convidado, em 1925, pelo célebre tipógrafo Stanley Morison, consultor da fundição tipográfica The Monotype Corporation, para criar novas fontes. Criou, entre outras, a serifada Perpetua, com um belo desenho clássico, seguindo a tradição de Caslon e Baskerville. Em 1927, Gill desenhou a Gill Sans, também para a Monotype, uma adaptação da fonte sem serifa utilizada no metrô de Londres. Esse desenho de letra tornou-se a fonte sem serifa mais popular na Inglaterra, na primeira metade do século XX.

Novas ideias de modernismo geométrico surgem por volta de 1950 em estilo funcional, com boa leitura, pura, sem remates ou serifas, sem a retórica da tradição. Chamadas neogrotescas, Helvética e Univers são exemplos desse estilo.

A Helvética – desenhada pelo tipógrafo suíço Max Miedinger (1910-1980), sob encomenda da fundição suíça Haas Foundry – foi lançada em 1957 e tornou-se um dos tipos mais populares e utilizados em todo o mundo. O desenho do tipo se baseia na fonte Haas Grotesk, que, por sua vez, era um redesenho da já existente Akzidenz Grotesk, de propriedade da própria Haas Foundry. 

Em 1961, a fundição alemã D. Stempel, que havia comprado os direitos dessa tipografia, adiciona a ela várias versões de pesos. Já na década de 1980, a empresa Linotype Library, que controlava parte da D. Sempel, lança a Neue Helvética, um redesenho otimizado da Helvética original.

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Essa ampla utilização da Helvética, principalmente nas décadas de 1960 e 1970, gerou um tema de discussão que divide muitos designers em todo o mundo. Os modernistas, que apreciam o tipo racional, elogiam sua beleza, boa legibilidade e elegância. Outros a rejeitam por considerá-la tediosa, inexpressiva e empresarial. E há também alguns que veem na Helvética o desafio de usá-la de maneira inovadora e diferenciada.

Fonte: Livro Fundamentos gráficos para um design consciente (Musa Editora)

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