Infinitos enigmas

O enigma do infinito, escrito por Jacques Fux e ilustrado por Raquel Matsushita (Editora Positivo) é um livro quebra-cabeça, cujas peças são pura matemática e literatura. Ao pensar no caminho para as ilustrações, mantive a referência dessas duas ciências que o texto traz.

A literatura é narrativa

Fui em busca de uma narrativa visual para os capítulos, que são pílulas independentes, mas possuem um fio condutor. A frase impressa na primeira página do livro dá uma dica ao leitor: “Queria a língua que se falava antes de Babel” (depoimento de Guimarães Rosa). Em seguida, há uma sequência de duas duplas ilustradas com lombadas de livros dispostos numa prateleira. Um deles, é o próprio Enigma do infinito, que se destaca por ser o único a estar inclinado. Entramos, então, na leitura do texto. No decorrer das páginas, o leitor atento percebe que os livros citados no texto são os mesmos dispostos na prateleira.

Cada capítulo ganha uma ilustração de abertura e uma dupla seguinte, que completa uma mini-narrativa visual (as cores e as captulares me ajudaram com isso). Temos, portanto, pequenas narrativas dentro de uma história maior.

Retomada da narrativa

O último capítulo traz a biblioteca de Babel como tema. A partir daí, há uma sequência só de imagens, que retoma as lombadas dos livros na prateleira. O enigma do infinito aparece, mas é o livro A biblioteca de Babel (do Borges) que agora ganha destaque pela inclinação. As páginas seguintes revelam, por se afastarem da prateleira, que estamos dentro da própria Biblioteca de Babel. A leitura do livro é, portanto, um passeio pela biblioteca, que contém todos os livros citados neste, que estamos lendo.

Carimbos modulares, combinações infinitas

A referência matemática aparece na geometria e ângulos das ilustrações. As imagens foram feitas com carimbos que fiz numa oficina, gravados a laser, com formas geométricas. Os carimbos são modulares e, por isso, dão margem para infinitas combinações. Com eles, criei imagens bastante figurativas, ainda que, alguns detalhes abstratos, no contexto, são inteligíveis como figura. Usei também carimbos tipográficos como suporte. As ilustrações são repletas de enigmas a serem descobertos pelo leitor.

Em “Era uma vez 20” um livro são dois

Era uma vez 20 (Editora Brinque Book, selo Escarlate) traz, de um lado, 10 grandes brasileiras que marcaram o Brasil. Do outro, os grandes brasileiros que fizeram história.

Escrito por Luciana Sandroni, o texto aborda breves biografias, retratadas por Natália Calamari (desenha os brasileiros) e Guilherme Karsten (desenha as brasileiras).

O livro é impresso com três pantones (laranja, verde e azul) e suas porcentagens e sobreposições. As cores ajudam o leitor a se localizar, já que na parte das mulheres a predominância é do laranja, enquanto na parte dos homens, é verde. Essa distinção é perceptível inclusive com o livro fechado, pela lateral das páginas. A cor azul entra como base na composição de ambos os lados.

Coleção | Grua Guarda |

Projeto gráfico para a coleção | guarda | da Editora Grua.

O logotipo da editora foi amplamente explorado na quarta capa, parte dele invade a primeira capa apenas para marcar o lettering: título e autor do livro saem da boca da imagem.

Foi aplicado uma textura ao fundo de cor para marcar a passagem do tempo, uma vez que a coleção é composta por livros já publicados anteriormente e renasce com uma nova roupagem. Por outro lado, gerando um equilíbrio no tempo, as cores vivas e saturadas dão o tom de contemporaneidade aos livros.

Cor e tipografia

A paleta de cor consiste num pantone + preto. O branco entra também como “cor”, portanto, o pantone deve garantir boa legibilidade tanto para o texto em preto quanto em branco.

A família tipográfica escolhida para a capa é um tipo contemporâneo. Por meio do alto contraste das astes (peso) faz-se a distinção da hierarquia do título e do autor, numa composição discreta e neutra para atender os diversos livros da coleção.

Parte do grafismo da primeira orelha invade a capa, além de compor com a primeira página do miolo. Esse grafismo foi criado a partir do desenho tipográfico do logo da editora.

A tipografia do miolo é uma serifada com boa legibilidade para garantir conforto na leitura. O livro é impresso em papel pólen.

Lançamento no dia 03/12/19, na Biblioteca Mário de Andrade, das 19h às 21h. Todos convidados!

O que pegamos emprestado dos outros?

Saindo do forno microondas e com cheirinho de pipoca o livro “O que pegamos emprestado dos outros” (Ed. Kapulana), texto de Marcelo Jucá e ilustrações de Raquel Matsushita.

Marcelo me convidou para ilustrar e fazer o projeto gráfico desse livro, quando o inscreveu no 2º edital de publicação de livros para autores não estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Ao ler o texto, fui parar em uma época bastante atribulada, para o bem e para o mal, da minha vida. Tive uma forte identificação com a personagem principal, Yasmin. Numa espécie de espelhamento, voltei para a minha adolescência e me lembrei de quando fazia a agenda do ano.

Me senti tão impactada pela leitura que aceitei na hora. Meses depois, ele volta com a notícia: o projeto foi contemplado no edital. Uma alegria! Chegou a hora, então, de pensar no projeto visual dessa obra infantojuvenil. Em paralelo, a editora Kapulana entrou como parceira na produção do livro.

Sempre que começo um trabalho de ilustração e de projeto gráfico, busco diversas referências que me ajudam a navegar mais fundo nos pensamentos. Para esse livro, saltaram de minhas lembranças as agendas que eu fazia todos os anos. Eram repletas de desenhos, reflexões e interrogações. Uma poluição visual que refletia as inquietações de dentro.

Corri para minhas agendas (sim, tenho tudo guardado) e, ao reviver aqueles momentos, incorporei Yasmin para criar as imagens do livro.

Minhas agendas

Sendo assim, peguei emprestada a personagem para ser a ilustradora. Com os olhos, traços e cores de Yasmin, revelo sentimentos, angústias e alegrias com os quais podemos nos identificar.

O projeto gráfico foi pensado em trazer as ilustrações em páginas duplas, uma vez que remetem à agenda da personagem aberta ao leitor (aliás, este era um dos prazeres da época: ler a agenda dos outros). Por meio das imagens, percebemos a personalidade de Yasmin, suas questões, suas manias (sempre com elementos recorrentes no traço da garota), suas angústias e suas alegrias.

A primeira página do livro é também a primeira página da agenda de Yasmin.

Em todos os desenhos há um elemento real sobre a agenda, que foram fotografados e inseridos na imagem. Há uma caneta bic (com a tampinha mordida, como é de se esperar…), com a qual Yasmin desenha a si própria. Há o fone de ouvido, pois ela tem na música uma forma de vida. Há pipocas em momentos difíceis, pois a pipoca, mais do que um alimento para o corpo, é um acalanto para a alma (coisa do pai dela).

O texto traz um viés social importante como pano de fundo. Yasmin vive dificuldades sociais (o pai está desempregado e a mãe trabalha fora o dia todo, a irmã…) e íntimas, típicas dessa fase de autoconhecimento, que na verdade não termina nunca, mas, na entrada da adolescência é um verdadeiro turbilhão de perguntas sem respostas (ou com muitas respostas, o que confunde mais ainda). Para potencializar esse cenário, busquei como referência elementos gráficos – como o grafite – e incorporei na ilustração.

Muros de grafite compõem o verso da capa

O lançamento do livro acontece no dia 19/10, sábado, das 11h às 13h, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima (R. Henrique Schaumann, 777 Pinheiros).

Haverá um bate-papo entre Marcelo Jucá e eu, contaremos tudo sobre a construção do livro. Todos convidados!

O projeto “O que pegamos emprestado dos outros” foi contemplado pelo 2º edital de publicação de livros para autores não estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Ao eterno Jorge Miguel Marinho

Tive a grande felicidade de ter os olhos do Jorge bem perto enquanto escrevia o livro Mínimo múltiplo comum. Sempre aprendi muito com ele e não digo apenas de literatura, mas de vida. Porque antes de ser um excelente professor, era uma pessoa excepcional. Todas as facetas dele, admiráveis, continha o que há de mais valioso: um pedacinho da vida, um pedacinho da gente. Tinha um jeito de ver – e viver – a vida que continha a gente. Um amigo, um leitor, um (des)conhecido. Imagino ser esse o motivo por ser tão amado.

Faço aqui minha singela homenagem à esse grande amigo, grande escritor, eternizado pelos seus lindos livros e certamente nos corações das borboletas que tiveram a alegria de passar por sua vida.

Aqui, dois contos que estão no livro Mínimo múltiplo comum escritos em homenagem ao nosso Jorge. E, em seguida, o posfácio escrito por ele. Pra mim, um texto-presente que levo pra sempre comigo. Por insegurança, eu queria que o texto fosse o prefácio do livro, mas o Jorge me convenceu em colocar depois dos contos para deixar o leitor livre da “contaminação” de um olhar. Por esse motivo, também nessa homenagem, respeito essa ordem.

Comunhão (para Jorge)

Subiu de dois em dois. Para chegar mais rápido, ela ia comendo os degraus. Havia um mendigo, que fumava deitado na escadaria. Tinha um jeito calmo, de quem assiste ao redor. Eles se olharam. No breve instante dessa intersecção, ele percebeu tudo, ela pensou. E teve vontade de dizer: ele não pode ir embora. Mas não disse. 

Chegou à portaria do prédio e confirmou a notícia. Foi um AVC.

No caminho de volta, e sem saber por que, andava acelerada como na ida, quando tinha pressa. A rua, as pessoas, tudo recoberto por uma cortina aguada que se formou nos olhos. Desceu a escadaria, o mendigo continuava lá. À espera. Eles se olharam de novo. Foi quando as lágrimas caíram, transbordaram. Ele não pode ir embora. Dessa vez, ela disse.

O mendigo sorriu somente com os olhos. Ela lambeu as lágrimas. Sentiu o salgado, a vida.

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O recado

Se as ondas são palavras, o mar estava calado. Ela caminhou até os rochedos, escolhendo com calma onde pisar, sem machucar. Prendeu o abdômen com força para ganhar equilíbrio. Não podia cair.

À beira dos rochedos, ela e o mar. Aquele mar surdo e mudo. Ainda assim, ela compreendeu. Compreendeu o silêncio das águas.

Horas antes, leu uma passagem de Ciranda de pedra, de Lygia. Daniel divagava sobre a morte, um ferro de passar desligado da tomada. Vai esfriando, esfriando, até ser apenas um corpo inerte. Só que com os homens é diferente. Há o sopro. Eterno, sobrevive dentro dos corpos dos que amaram aquele que se foi. Era bonito aquilo. A morte nas palavras dela. Quis abraçar e xingar e beijar Lygia. E ele também.

Teve vontade de chorar. O mesmo choro de criança, quando desenterrou, depois de uma semana, o passarinho de estimação para ver do que a morte era capaz. E viu. Viu lá no horizonte indefinido. O canto do pássaro se formando junto com uma onda, que ganhou força e bateu contra o rochedo. Voou alto sobre as pedras. As gotas salgadas no rosto dela, sem saber se dos olhos ou do mar.

Nesse instante, bem nesse agora, ela inspirou um sopro. Uma paz enorme tomou conta. Quase se sentiu feliz.

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Posfácio

SER SIMPLES FAZ SENTIDO 

Crônicas ou contos? Nem gênero nem gênese. Melhor chamar de instantes de ficção ou simples questão de acordo literário. Casamento de palavra e emoção poética, feliz encontro de realidade e imaginário, o real em trânsito de comunhão com a fantasia. Ficção centrada em histórias comuns, anônimas e tão familiares, literatura viva e vivida.

Ser simples faz muito sentido. 

Raquel Matsushita sente e escreve, casa a linguagem com a vida, extrai da simplicidade de ser e escrever coisas alegres e coisas doídas com forte dimensão humana.

Essência emotiva e emoção na essência.

É assim que acontece a criação literária da Raquel que joga contra e a favor da condição humana, sempre plena de tensão significativa. Poesia prosaica e prosa com poesia, literatura por dentro da realidade, expressão existencial do que acontece de repente. Instantâneos de amor, sentimento de falta, ausência do que pode ser e não é. O acaso de existir.

Registro poético quase sem intermediação, escritora e escritura unidas pelo sentido de encontro e de comunhão.

Paixão, sempre paixão em ritmo de denúncia sofrida por ela que escreve e pelos outros que apenas buscam viver. Ou sobreviver. No fundo e pela força de uma possível poética da simplicidade, permanente promessa de um mundo melhor.

Existência e revelação na palavra literariamente sentida.

Jorge Miguel Marinho

II Jornada literatura de infância – PUC-SP

Nesta quinta, dia 6/6, 14h30, tenho a honra de participar de uma mesa bem linda – Mediação de Leitura: imagem e experimentação literária, com Elizabeth CardosoAline FredericoLuis Girão e Debora Barbieri, na II Jornada Literatura de infância, na PUC-SP (Rua Ministro Godoy 969).

Falarei sobre Empatia e Intenção na construção das imagens e do projeto gráfico. A importância de falarmos sobre o que não está impresso nos livros: o processo, o pensamento por trás da criação. Não somente como um dado de curiosidade, mas como uma ferramenta de trabalho, principalmente aos mediadores, tão importantes no estímulo à leitura, sejam professores, bibliotecários, blogueiros, pais ou qualquer pessoa que lê para uma criança.

O evento é gratuito, só chegar! Todos convidadíssimos.

o guarda-chuva que desenguardachuvou

O guarda-chuva que desenguardachuvou (Trioleca Editora) é o mais recente livro de Claudio Fragata e Raquel Matsushita. O texto de quarta capa, escrito nas palavras encantadoras de Stella Maris Rezende, diz assim: “Você quer se maravilhar com desenhos chuvosos e palavras ensolaradas? Quer uma história de amor, fantasia, surpresas e reviravoltas? Então abra este livro-guarda-chuva! Orthofie-se na aventura de imagens matsushitas e palavras que são fragatas de encantadora poesia. Descubra segredos… Se abra para a vida e para suas possibilidades. Faça chuva ou faça sol. Viva a liberdade! Viva o maravilhamento!”

Saiu uma resenha na revista Crescer, em maio de 2019. Confira aqui:

O livro começa numa grande tempestade e termina com o sol brilhando. Algumas imagens mostram a temperatura e o clima desta história.

Segredo sobre a Raquel nas palavras do Claudio: quem olha para as lindas imagens deste livro nem imagina como foram feitas. Raquel usou as coisas mais malucas para criar fundos, formas, texturas e personagens. Usou pente, tampa de vidro de remédio, papel-toalha, plástico-bolha. Usou gomo de mexerica, casca de banana, pétala de flor e até biscoito waffle como se fossem carimbos. Também carimbou as letras G, I, S, O e Y  com carimbos de verdade para completar algumas figuras. Folheie as páginas do livro e veja se você consegue descobrir os truques de arte da Raquel.

Para ver mais, visite o site da Entrelinha.

poesia em dois livros

Dois livros de poesia, ambos com projeto gráfico da Entrelinha, lançados pela Ozé Editora.

Livro “Mindinho maior de todos”, de Juliana Valverde, com ilustrações de Feres Khoury

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“O mar tem fim?
Tudo tem, / sim, / um começo. / E o que começa / termina. / Nessa certeza, / um protesto: / mar é mar, / resto / é / resto.”

“Mamãe e a árvore
Mamãe cantando para / a árvore cheia de vida. / – Mãe, folha ama?”

“Sapatarinheiraria
Ao saber que de nada sabia / e que o pouco que soubera / fez com que soubesse / do tanto que ainda tinha de saber, / seu Sousa da sapataria / sentou-se num toco de tronco e / esperou.”

Juliana Valverde

“A poesia existe para falar da vida e do mundo de forma subjetiva e impressionista. No lugar das fórmulas prontas, de rótulos e descrições que já conhecemos, na poesia os assuntos aparecem marcados pela voz singular, pessoal e única do poeta. Com a poesia penetramos no patamar da voz humana individual, sua sensibilidade, seu espanto, sua precariedade, sua força. Foi o que senti ao ler o livro Mindinho maior de todos, de Juliana Valverde. (…)”. Ricardo Azevedo

“Você não esqueceu meu cheiro”, de Ana Guima

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“Despi-me / de corpo / e alma / fiquei a vontade / em ti.”

“Ela era quente / ele era frio / se encontraram / vermelho e azul / arroxearam-se / à primeira vista”.

“La Mariposa
As lagartas saem dos casulos / transformadas em borboletas / em que meu peito / vai se transformar / quando eu sair do casulo, / quando eu curar o coração, / que véu vai cair?”

Ana Guima