As coisas de que não me lembro, sou

Escrito por Jacques Fux, ilustrado por Raquel Matsushita, o livro As coisas de que não me lembro, sou (Aletria Editora) é uma viagem ao (in)consciente humano.

Na entrevista a seguir, ao Carlos Andrei, conto um pouco sobre o processo de criação das imagens do livro a partir das provocações que o texto nos oferece.

Como se deu o processo de ilustração do livro?

O processo de ilustração foi feito com muita liberdade em todos os sentidos. Identifiquei um forte viés psicanalítico na narrativa do personagem, desde o nascimento até a vida adulta. A psicanálise foi, portanto, o ponto de partida para a investigação e pesquisa das ilustrações. Depois que encontrei esse caminho para as imagens, fiz alguns desenhos e apresentei à editora e ao autor, que curtiram a proposta.

Gostaria que você comentasse um pouco sobre a escolha das cores, predominantemente, o preto e o branco.

O livro trata de uma memória “esquecida”, mas é justamente por meio dela que o narrador conta as histórias e reconstrói a si mesmo. No paradoxo do ambiente escuro das não-recordações, o narrador se revela em forma de fragmentos.
O projeto gráfico do livro propõe intensificar a ideia de fragmentos com pequenos trechos de texto distribuidos nas duplas. Ainda sobre esses trechos, um novo fragmento de texto é realçado por retângulos pretos ou brancos, que, por sua vez, se misturam com as ilustrações.
O preto e branco (do papel) se revezam no protagonismo de cada capítulo. Também foram pensados como uma alusão à lembrança e não-lembrança do narrador, a luz e a sombra.

As ilustrações trazem referências de algumas obras de arte. Você poderia destacar algumas que considera importantes e, de algum modo, contribui para construir a linguagem visual do livro como um todo?

Todas as imagens têm uma referência direta com uma obra de arte. Selecionei os principais artistas surrealistas (ou que participaram do movimento) com obras que se relacionam com a passagem do texto nas duplas. As ilustrações foram criadas livremente sobre essas obras, sendo, portanto, uma releitura, uma reconstrução do passado.
No conjunto de 20 ilustrações, houve a preocupação em escolher artistas brasileiros
e também em equilibrar os gêneros (9 mulheres e 11 homens). Ao final do livro, há a relação das obras e artistas selecionados.

As imagens deste livro foram livremente inspiradas nas obras de artistas que participaram do movimento surrealista.

Meret Oppenheim, Mesa com pés de pássaro (1939): capa
Joan Miró, Nascimento do mundo (1925): p. 6-7
Tarsila do Amaral, Urutu (1928): p. 8-9
Paul Klee, Irmãos (1930): p. 10-11
René Magritte, Decalcomania (1966): p. 12-13
Frida Kahlo, Meus avós, meus pais e eu (1936): p. 14-15
Man Ray, Os amantes (1936): p. 16-17
Maria Martins, O impossível (1945): p. 18-19
Leonora Carrington, O último peixe (1974): p. 20-21
Ismael Nery, Eternidade (1931): p. 22-23
Dorothea Tanning, Maternidade (1947): p. 26-27
Kay Sage, A resposta é não (1958): p. 28-29
Marc Chagall, Amantes rosa (1916): p. 30-31
Luis Buñuel, Um cão andaluz (1929): p. 32-33
Remedios Varo, O fazendeiro (1958): p. 34-35
Max Ernst, Os homens não sabem nada (1923): p. 36-37
Pablo Picasso, Garota em frente ao espelho (1932): p. 40-41
Cicero Dias, Sem título (1920): p. 42-43
Gertrude Abercrombie, Levitação (1953): p. 44-45
Salvador Dalí, A persistência da memória (1931): p. 46-47

Jacques Fux recorda que o ponto de partida desse livro remonta a 2014, quando foi convidado por Marco Lucchesi, enquanto presidente da Academia Brasileira de Letras, para escrever um artigo para a revista da ABL. Naquele ano, o escritor estava cursando pós-doutorado na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, onde se aprofundou nas questões sobre a memória, que vai além do que se lembra. “Inclui também o que esquecemos, transformamos, criamos e recalcamos. Eu estava trabalhando com o testemunho na literatura, e fiz uma imersão no tema. E, assim, escrevi esse texto que eu acho que é único na minha vida. É um texto muito bonito, muito sincero”, comenta Fux.
Dois autores com os quais ele estava dialogando bastante nos seus estudos foram Georges Perec (1936-1982) e Sarah Kofman (1934-1994), que passaram pelo trauma da Segunda Guerra Mundial e também produziram livros nos quais se valem de uma linguagem infantil, mas sem abrir mão da densidade das questões abordadas por eles. Produzir “As Coisas que Não me Lembro, Sou”, para Fux, foi, de certo modo, realizar esse exercício de retorno a um “lugar” já esquecido mas ao mesmo tempo familiar para todo mundo.
“Esse texto é muito bonito, fala o que todo mundo viveu e o que todo mundo esqueceu, mas esse esquecimento foi fundamental para criação de quem somos. Todas essas coisas que nós não lembramos da infância, desses carinhos, desse convívio com os pais, enfim, dessa vida de neném, eu acho que são justamente essas memórias que nos fazem ser o que somos. Então, esse livro trata muito dessa não memória, mas que, de alguma forma, nos define”, completa Fux.

Para Rosana de Mont’Alverne, editora da Aletria, “As Coisas que Não me Lembro, Sou” é um livro reflexivo e encantador, para ler, reler e presentear. “Quando crianças, amamos ouvir repetidamente as histórias de nosso nascimento, do casamento de nossos pais, daquele tombo horrível que deixou cicatriz… Assim vamos nos constituindo, não só pela memória dos acontecidos, mas também pelas narrativas dos adultos. Freud dizia que não somos apenas o que pensamos ser. ‘Somos mais’ – diz ele – ‘somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos ‘sem querer’”, ressalta.

“Jacques Fux nos traz, em boa hora, essa reflexão freudiana traduzida num texto literário belíssimo, enxuto e, sobretudo, SIMPLES, essa qualidade dificílima de alcançar na aventura de escrever um livro. A cereja do bolo é o projeto gráfico e as ilustrações de Raquel Matsushita, que brinca com o claro-escuro o tempo todo, numa alusão à escuridão das não-recordações que impulsionam-nos à busca da claridade e do autoconhecimento”, conclui a editora.

Veja mais em Entrelinha Design.

Correio amoroso

Correio amoroso é uma antologia, organizada por Henrique Rodrigues, editada pela Oficina Raquel Editora, que reúne 20 cartas sobre paixões, encontros e despedidas, com projeto gráfico de Raquel Matsushita. A diversidade de cartas são assinadas pelos autores: ANA PESSOA, BRUNO RIBEIRO, CLOTILDE TAVARES, CRISTIANE SOBRAL, EDNEY SILVESTRE, HENRIQUE RODRIGUES, JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA, JACQUES FUX, JESSÉ ANDARILHO, LUIZA MUSSNICH, MARCELA DANTÉS, MARCELO MOUTINHO, MÁRIO RODRIGUES, MATEUS BALDI, NATALIA BORGES POLESSO, NATALIA TIMERMAN, OLÍVIA NICOLETTI, PAULA GICOVATE, RENATA BELMONTE e TAYLANE CRUZ.

O livro vem encartado numa sobrecapa em forma de envelope, que, ao ser desdobrada, se revela a forma de um coração.

A sobrecapa-envelope traz o poema Todas as cartas de amor são ridículas, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), mencionado no texto de apresentação do livro. Em alusão ao poema, a própria forma de coração do envelope traz, propositalmente, um pouco desse “ridículo” do poema.

A disposição do título denota um movimento, algo vivo (e por vezes por caminhos desencontrados) nas histórias de amor. As cores trazem algo pulsante no contraste do rosa com tons de azul e roxo.
A letra O do título, em repetição, cria um padrão no qual se encontram, metaforizados pela letra, pessoas em todo tipo de relacionamento (pares, trios, em grupo), além dos indivíduos que se encontram sozinhos.

Capa aberta com orelhas
página de rosto

No miolo, trechos do poema de Álvaro de Campos se transformam em aberturas de capítulo numa organização conceitual dos textos.

Lançamento no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. SAVE THE DATE

Mais no site da Entrelinha.

O nascimento de uma marca

Como nasce uma marca? Qual o caminho para criar um nome para um selo literário? Neste post, com depoimentos de todas as pessoas envolvidas no processo, você acompanha o surgimento de Maralto Edições.

A tarefa do naming (criação do nome) ficou por conta de Magno Silveira (magnostudio.com.br). Já o desenho da marca, ficou nas mãos de Raquel Matsushita. No entanto, o processo de desenvolvimento da marca foi um trabalho realizado em equipe, com muitas trocas de ideias, ao lado da editora de literatura Cristiane Mateus.

Segundo a editora: “Queríamos um nome com alguma referência literária relevante, mas não óbvia. Precisava dialogar com o símbolo, a metáfora, a abstração. Não poderia ser um nome entregue de bandeja ao leitor. A boa literatura nos escapa, um bom nome deveria seguir essa premissa.”.

A casa editorial publica livros literários para a infância, juvenis e adulto. Sendo assim, a marca deve contemplar todos os públicos.

Parte I – Em busca do nome

Nas palavras de Magno Silveira: “Construir marcas é estimulante e desafiador. A começar pela criação do nome, atividade chamada naming. Como todos os dias surgem marcas nos mais diversos segmentos, dar nome a um empreendimento tornou-se algo que exige um roteiro, uma técnica mínima que seja. Começo sempre pelo entendimento do negócio e pela pesquisa das marcas existentes no mercado – neste caso, nas editoras.

Uma vez entendido o objetivo do projeto, que precisa atender questões como o posicionamento da editora e a gama de leitores que pretende abarcar, é hora de saber a qual categoria o nome deverá pertencer. Basicamente, as categorias de nome são: real, simbólico e imaginário. Atualmente a tendência são os nomes simbólicos ou imaginários. Um dos motivos é que essas são as categorias com maiores chances de se obter registro no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) e nos domínios de internet (site e redes sociais). Os nomes de categoria real, pelo contário: são comuns, pouco criativos e, portanto, mais difíceis de registrar.

Além disto, nomes das categorias simbólico e imaginário são os que proporcionam uma comunicação mais criativa e diferenciadora. Portanto, determinamos que o nome da editora deveria ser da categoria imaginário. Entram em cena dicionários de vários idiomas (tentamos diversos nomes em tupi-guarani, inclusive), romances, poemas… livros, enfim.

Eis que surge, vinda de um poema de Drummond, a palavra Maralto. Inexistente no dicionário, a palavra é uma aglutinação de “mar alto”, alto mar. A sua sonoridade é repleta de lirismo onde a sílaba tônica “-ral” traz o ápice, o alto, o longínquo; e a sílaba átona “-to” colabora para que uma vastidão se estabeleça. Maralto.

Maralto é alto mar onde vaga o leitor, é onde as letras mergulham brincando de peixes reluzentes. Maralto também é editora e livro, um barco capaz de levar a horizontes novos e surpreendentes. Maralto, ainda, é uma enseada tranquila onde livros arriam as velas e aportam.”

Parte II – O desenho da marca

A partir da definição do nome, inicia-se o processo de criação da marca. Na concepção de mar alto, a porção do mar afastada da costa ou do limite à beira-mar, vem a ideia da navegação, da viagem, de um mergulho nas profundezas. Mar alto… é nele, em sua profundeza, onde navega a literatura.

O símbolo da marca, apresentado de forma estilizada, é um peixe, aquele que navega no mar. A associação proposta traz a metáfora do mar como literatura e o peixe como leitor.

A tipografia do lettering tem como base de construção as formas geométricas básicas, sem serifa e alta legibilidade, mesmo quando aplicada em versão pequena.

Foram criadas versões para usos específicos. A versão sem tagline, mais limpa, é aplicada na capa dos livros. A versão com tagline é usada na página de créditos e material institucional. O símbolo é aplicado na lombada e no colofón.

Cores

A marca possui uma cor específica apenas para uso institucional: um azul profundo.

Para a aplicação na capa de livros não há uma cor fixa, ela varia de acordo com o meio colorístico em que se encontra. As cores escolhidas devem sempre garantir boa legibilidade.

Para livros de literatura adulta e juvenil, a marca é aplicada em uma única cor.

Já para literatura para infância, a marca é aplicada em duas cores: uma no símbolo e outra no lettering.

A seguir, algumas capas de livros com a marca aplicada.

Nas palavras finais de Cristiane Matues, “assim, nasceu a Maralto Edições. E para todos aqueles que, além dos livros, amam o mar, sua concretude exuberante, vai no nome que escolhemos um duplo regalo!”

coleção Cornélio Penna

Coleção Cornélio Penna (Faria e Silva Editora) sai agora com seis volumes, sendo um deles, o caderno de desenho e pintura do autor.

Os desenhos de Cornélio foram utilizados para compor a capa de toda coleção. A paleta é composta por 6 cores que trabalham em sistema de duos nas capas: vermelho com ouro; azul com prata; bege com preto. O branco (do papel) e o preto também atuam como cor-base.

Os desenhos em traço preto e em negativo também foram utilizados nas páginas de rosto, assim como os originais datilografados com rasuras e correções do próprio autor.

A coleção foi impressa em uma cor no miolo (preto) em papel pólen, com exceção do livro Caderno de pinturas e desenhos, impresso em 4 cores em couchê fosco.

Foi criada uma luva (box), impressa em 3 cores, para acomodar todos os livros da coleção.

Para ver mais sobre a coleção, visite o site da Entrelinha Design.

Infinitos enigmas

O enigma do infinito, escrito por Jacques Fux e ilustrado por Raquel Matsushita (Editora Positivo) é um livro quebra-cabeça, cujas peças são pura matemática e literatura. Ao pensar no caminho para as ilustrações, mantive a referência dessas duas ciências que o texto traz.

A literatura é narrativa

Fui em busca de uma narrativa visual para os capítulos, que são pílulas independentes, mas possuem um fio condutor. A frase impressa na primeira página do livro dá uma dica ao leitor: “Queria a língua que se falava antes de Babel” (depoimento de Guimarães Rosa). Em seguida, há uma sequência de duas duplas ilustradas com lombadas de livros dispostos numa prateleira. Um deles, é o próprio Enigma do infinito, que se destaca por ser o único a estar inclinado. Entramos, então, na leitura do texto. No decorrer das páginas, o leitor atento percebe que os livros citados no texto são os mesmos dispostos na prateleira.

Cada capítulo ganha uma ilustração de abertura e uma dupla seguinte, que completa uma mini-narrativa visual (as cores e as captulares me ajudaram com isso). Temos, portanto, pequenas narrativas dentro de uma história maior.

Retomada da narrativa

O último capítulo traz a biblioteca de Babel como tema. A partir daí, há uma sequência só de imagens, que retoma as lombadas dos livros na prateleira. O enigma do infinito aparece, mas é o livro A biblioteca de Babel (do Borges) que agora ganha destaque pela inclinação. As páginas seguintes revelam, por se afastarem da prateleira, que estamos dentro da própria Biblioteca de Babel. A leitura do livro é, portanto, um passeio pela biblioteca, que contém todos os livros citados neste, que estamos lendo.

Carimbos modulares, combinações infinitas

A referência matemática aparece na geometria e ângulos das ilustrações. As imagens foram feitas com carimbos que fiz numa oficina, gravados a laser, com formas geométricas. Os carimbos são modulares e, por isso, dão margem para infinitas combinações. Com eles, criei imagens bastante figurativas, ainda que, alguns detalhes abstratos, no contexto, são inteligíveis como figura. Usei também carimbos tipográficos como suporte. As ilustrações são repletas de enigmas a serem descobertos pelo leitor.

Coleção | Grua Guarda |

Projeto gráfico para a coleção | guarda | da Editora Grua.

O logotipo da editora foi amplamente explorado na quarta capa, parte dele invade a primeira capa apenas para marcar o lettering: título e autor do livro saem da boca da imagem.

Foi aplicado uma textura ao fundo de cor para marcar a passagem do tempo, uma vez que a coleção é composta por livros já publicados anteriormente e renasce com uma nova roupagem. Por outro lado, gerando um equilíbrio no tempo, as cores vivas e saturadas dão o tom de contemporaneidade aos livros.

Cor e tipografia

A paleta de cor consiste num pantone + preto. O branco entra também como “cor”, portanto, o pantone deve garantir boa legibilidade tanto para o texto em preto quanto em branco.

A família tipográfica escolhida para a capa é um tipo contemporâneo. Por meio do alto contraste das astes (peso) faz-se a distinção da hierarquia do título e do autor, numa composição discreta e neutra para atender os diversos livros da coleção.

Parte do grafismo da primeira orelha invade a capa, além de compor com a primeira página do miolo. Esse grafismo foi criado a partir do desenho tipográfico do logo da editora.

A tipografia do miolo é uma serifada com boa legibilidade para garantir conforto na leitura. O livro é impresso em papel pólen.

Lançamento no dia 03/12/19, na Biblioteca Mário de Andrade, das 19h às 21h. Todos convidados!

As páginas de Elvira Vigna

ilustra_elvira_final

Desconstruir para reconstruir: reflexo de uma página em branco    @Raquel Matsushita

texto e ilustração: Raquel Matsushita

Elvira era uma construtora de literatura, da boa. Tanto da escrita como do desenho. Escreveu romances para adultos e livros para infância. Ilustrou vários livros infantis. Foi reconhecida e premiada em ambas carreiras. Era completa na sua incompletude. Por meio das suas narrativas, ela constrói um leitor ativo. De que maneira? Com a falta, as lacunas que deixa em aberto. Ela nos dá de presente o desafio de pensar. Uma página em branco. Preenchemos tais lacunas, ainda que não todas, com o que nos toca. Há uma intersecção entre o que ela escreve e o que faz sentido para nós, leitores. Sob esse aspecto, compreendemos as palavras dela: “eu escrevo chorando. Não é o motivo principal de escrever sozinha, isolada, mas é um dos motivos. É vergonha, porque de fato escrevo chorando pitangas. Aí, quando a pessoa chega perto de mim e chora também, eu acredito que ela tenha me entendido, e eu entendido ela. A gente está muito próximo.” Elvira não subestima o leitor, ao contrário, confia nele, cria uma parceria cúmplice, chega perto. Ela instiga, provoca e a gente sela essa união.

Quando eu lia o último romance dela, com o qual ela nos instiga já no título – Como se estivéssemos em palimpsesto de putas –, a editora de literatura da Positivo me convidou para ilustrar um livro da autora: Uma história pelo meio, reedição da obra de 1982. Aceitei na hora, pois estava completamente envolvida com Elvira pela leitura do romance adulto. Era como se eu, tão próxima dela, não pudesse negar. O meu desejo era realmente fazer o trabalho, mas sabia que enfrentaria um grande desafio pela frente porque a tal cumplicidade entre ela e o leitor – entre nós duas, portanto –, é uma cumplicidade de dois gumes. Nas palavras dela, “o escritor desestabiliza o leitor, procura fazer com que ele não tenha seus anseios atendidos – pelo contrário, faz com que tenha as suas certezas abaladas. É isso que qualquer arte digna do nome faz: destrói certezas, abre outras possibilidades”. Se no início deste artigo eu disse que Elvira constrói, agora reitero que ela também destrói. Elvira é pura dualidade, um reflexo da condição humana.

Não foi à toa que começei a narrativa visual de Uma história pelo meio com uma página em branco. Li e reli o texto por inúmeras vezes. Me senti acuada, sem encontrar um caminho para ilustrar esse livro tão ousado.

Elvira, há tempos, deu um recado para quem ilustra ao afirmar que a imagem não deveria repetir o texto, mas reinventá-lo. Ela faz do ilustrador também um leitor, trata todos da mesma maneira: deposita em nós a confiança do esforço de interpretação, já que pensar dá trabalho. Ela dizia: “Hoje, um texto — os meus e os dos autores de que gosto — não se fecha, ele necessita da contribuição do leitor para existir.”. Sendo assim, a boa leitura é uma ação complementar.

A partir desse entendimento, como se ela me convidasse para entrar numa brincadeira de corda que já estivesse pulando, me preparei com os braços a postos, contei três vezes e entrei no ritmo da corda para pular junto com ela.

Elvira era mesmo mestra em nos fazer pensar.

[As frases desse artigo foram tiradas da entrevista dada em novembro de 2013, no Projeto Paiol Literário, promovido pelo Jornal Rascunho].

Livro: Uma história pelo meio
Texto: Elvira Vigna | Ilustração e projeto gráfico: Raquel Matsushita
Editora Positivo, 2018
Mais sobre o processo.

Catálogo de perdas no prêmio literário da BN 2018

Com imensa alegria, comemoramos o Prêmio Literário da Biblioteca Nacional 2018 para o livro Catálogo de perdas (Sesi-SP Editora), contos de João Carrascoza, fotos de Juliana Carrascoza e projeto gráfico de Raquel Matsushita, no terceiro lugar da categoria Projeto gráfico • Prêmio Aloísio Magalhães. VIVA!

IMG_3373

Os contos desse livro possuem um “personagem” em comum: a perda. São narrativas que se apropriam desse mote para contar uma história. Tomei essa ausência como conceito na criação do projeto gráfico. Saiba mais sobre o processo de criação.

O livro ganhou também em duas categorias (Projeto gráfico e Jovem) do prêmio FNLIJ 2018.

Veja a lista completa  do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional 2018. Parabéns a todos os vencedores!

arte muda da fuga

Arte muda da fuga, livro de poesias com fotos, de Carlos Dala Stella (Editora Positivo), projeto gráfico da Entrelinha, será lançado nesse sábado, dia 10/11/18, na Livraria Arte & Letra, em Curitiba.

IMG_0390

O projeto visual da capa tem como base as formas geométricas utilizadas por Carlos Dala Stella em seu trabalho. Tendo como referência as obras abstratas do artista, foi criada uma imagem de recortes que, sobrepostos, criam novas imagens. Essa sobreposição de recortes dá a dica da imagem contida na primeira página do miolo, um retrato do artista.

IMG_0391IMG_0392IMG_0393

IMG_0395IMG_0396IMG_0397

convite_arteMuda

festa do MMC

Mínimo, múltiplo, comum (Sesi-SP Editora), escrito e ilustrado por Raquel Matsushita, é um livro de contos para o leitor adulto.

A festa de lançamento foi uma imensa alegria para mim. Agradeço imensamente a todos que vieram, fizemos juntos um lindo encontro afetivo! Uma alegria constatar a capacidade do livro em reunir, em vários sentidos e circunstâncias, o mais valioso da vida: as pessoas.

Aos que não puderam ir, convido para conhecer mais sobre o livro no post do blog e no site da Entrelinha.

Abaixo, um álbum do lançamento ❤

F76A6455F76A6570F76A6468F76A6527F76A6528PHOTO-2018-10-27-10-53-20PHOTO-2018-10-27-10-53-071c50b1ca-74ab-4324-a384-f2981b8908f3IMG_0293IMG_0158F76A6606F76A6603F76A6598F76A6595F76A6593F76A6592F76A6589F76A6585F76A6584F76A6581F76A6577F76A6575F76A6562F76A6553F76A6549F76A6547F76A6537F76A6536F76A6534F76A6533F76A6523F76A6512F76A6506F76A6502F76A6498F76A6491F76A6488F76A6484F76A6477F76A6474F76A6471PHOTO-2018-10-31-15-57-49PHOTO-2018-10-27-10-53-20-1PHOTO-2018-10-27-10-53-19PHOTO-2018-10-27-10-53-17PHOTO-2018-10-27-10-53-16-3F76A6464PHOTO-2018-10-27-10-53-16-2PHOTO-2018-10-27-10-53-16-1PHOTO-2018-10-27-10-53-15-3PHOTO-2018-10-27-10-53-15-2PHOTO-2018-10-27-10-53-15-1PHOTO-2018-10-27-10-53-14PHOTO-2018-10-27-10-53-14-1PHOTO-2018-10-27-10-53-12PHOTO-2018-10-27-10-53-12-1e9a2868f-86ed-423d-9958-020a4908581bPHOTO-2018-10-27-10-53-11e2ca4dc8-727c-4afe-8530-7fe8d49f8c13PHOTO-2018-10-27-10-53-11-1PHOTO-2018-10-27-10-53-08d8228c48-9c19-4223-8775-d6ec2c5ee2f6PHOTO-2018-10-27-10-53-08-1ba70f51f-1814-4fa1-88b7-2201e8717ec2a6c48ba0-b3b9-476d-a0d8-afb32ea30dd94787906f-7186-4133-837a-f9e759b468211617d1fc-b95c-4b1e-9d23-7f81129cd89b162a5f44-4141-4fdb-9ab0-eee1e5e8d28984df00a6-e844-4e78-a99f-91b8e7aa430d73b6fb01-3023-417d-8476-9c246f74453556ab7983-b69b-44f1-aba2-6ab015c1fdc719dd285d-bfcd-49aa-8de0-b0dc712efee919a5cae1-e155-4d85-9c95-0ef6c184e27c9f2fc5ef-10ab-46e0-bb8d-6336a31f5a829c95cb0e-35de-44c9-aa03-b40936246e11