As coisas de que não me lembro, sou

Escrito por Jacques Fux, ilustrado por Raquel Matsushita, o livro As coisas de que não me lembro, sou (Aletria Editora) é uma viagem ao (in)consciente humano.

Na entrevista a seguir, ao Carlos Andrei, conto um pouco sobre o processo de criação das imagens do livro a partir das provocações que o texto nos oferece.

Como se deu o processo de ilustração do livro?

O processo de ilustração foi feito com muita liberdade em todos os sentidos. Identifiquei um forte viés psicanalítico na narrativa do personagem, desde o nascimento até a vida adulta. A psicanálise foi, portanto, o ponto de partida para a investigação e pesquisa das ilustrações. Depois que encontrei esse caminho para as imagens, fiz alguns desenhos e apresentei à editora e ao autor, que curtiram a proposta.

Gostaria que você comentasse um pouco sobre a escolha das cores, predominantemente, o preto e o branco.

O livro trata de uma memória “esquecida”, mas é justamente por meio dela que o narrador conta as histórias e reconstrói a si mesmo. No paradoxo do ambiente escuro das não-recordações, o narrador se revela em forma de fragmentos.
O projeto gráfico do livro propõe intensificar a ideia de fragmentos com pequenos trechos de texto distribuidos nas duplas. Ainda sobre esses trechos, um novo fragmento de texto é realçado por retângulos pretos ou brancos, que, por sua vez, se misturam com as ilustrações.
O preto e branco (do papel) se revezam no protagonismo de cada capítulo. Também foram pensados como uma alusão à lembrança e não-lembrança do narrador, a luz e a sombra.

As ilustrações trazem referências de algumas obras de arte. Você poderia destacar algumas que considera importantes e, de algum modo, contribui para construir a linguagem visual do livro como um todo?

Todas as imagens têm uma referência direta com uma obra de arte. Selecionei os principais artistas surrealistas (ou que participaram do movimento) com obras que se relacionam com a passagem do texto nas duplas. As ilustrações foram criadas livremente sobre essas obras, sendo, portanto, uma releitura, uma reconstrução do passado.
No conjunto de 20 ilustrações, houve a preocupação em escolher artistas brasileiros
e também em equilibrar os gêneros (9 mulheres e 11 homens). Ao final do livro, há a relação das obras e artistas selecionados.

As imagens deste livro foram livremente inspiradas nas obras de artistas que participaram do movimento surrealista.

Meret Oppenheim, Mesa com pés de pássaro (1939): capa
Joan Miró, Nascimento do mundo (1925): p. 6-7
Tarsila do Amaral, Urutu (1928): p. 8-9
Paul Klee, Irmãos (1930): p. 10-11
René Magritte, Decalcomania (1966): p. 12-13
Frida Kahlo, Meus avós, meus pais e eu (1936): p. 14-15
Man Ray, Os amantes (1936): p. 16-17
Maria Martins, O impossível (1945): p. 18-19
Leonora Carrington, O último peixe (1974): p. 20-21
Ismael Nery, Eternidade (1931): p. 22-23
Dorothea Tanning, Maternidade (1947): p. 26-27
Kay Sage, A resposta é não (1958): p. 28-29
Marc Chagall, Amantes rosa (1916): p. 30-31
Luis Buñuel, Um cão andaluz (1929): p. 32-33
Remedios Varo, O fazendeiro (1958): p. 34-35
Max Ernst, Os homens não sabem nada (1923): p. 36-37
Pablo Picasso, Garota em frente ao espelho (1932): p. 40-41
Cicero Dias, Sem título (1920): p. 42-43
Gertrude Abercrombie, Levitação (1953): p. 44-45
Salvador Dalí, A persistência da memória (1931): p. 46-47

Jacques Fux recorda que o ponto de partida desse livro remonta a 2014, quando foi convidado por Marco Lucchesi, enquanto presidente da Academia Brasileira de Letras, para escrever um artigo para a revista da ABL. Naquele ano, o escritor estava cursando pós-doutorado na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, onde se aprofundou nas questões sobre a memória, que vai além do que se lembra. “Inclui também o que esquecemos, transformamos, criamos e recalcamos. Eu estava trabalhando com o testemunho na literatura, e fiz uma imersão no tema. E, assim, escrevi esse texto que eu acho que é único na minha vida. É um texto muito bonito, muito sincero”, comenta Fux.
Dois autores com os quais ele estava dialogando bastante nos seus estudos foram Georges Perec (1936-1982) e Sarah Kofman (1934-1994), que passaram pelo trauma da Segunda Guerra Mundial e também produziram livros nos quais se valem de uma linguagem infantil, mas sem abrir mão da densidade das questões abordadas por eles. Produzir “As Coisas que Não me Lembro, Sou”, para Fux, foi, de certo modo, realizar esse exercício de retorno a um “lugar” já esquecido mas ao mesmo tempo familiar para todo mundo.
“Esse texto é muito bonito, fala o que todo mundo viveu e o que todo mundo esqueceu, mas esse esquecimento foi fundamental para criação de quem somos. Todas essas coisas que nós não lembramos da infância, desses carinhos, desse convívio com os pais, enfim, dessa vida de neném, eu acho que são justamente essas memórias que nos fazem ser o que somos. Então, esse livro trata muito dessa não memória, mas que, de alguma forma, nos define”, completa Fux.

Para Rosana de Mont’Alverne, editora da Aletria, “As Coisas que Não me Lembro, Sou” é um livro reflexivo e encantador, para ler, reler e presentear. “Quando crianças, amamos ouvir repetidamente as histórias de nosso nascimento, do casamento de nossos pais, daquele tombo horrível que deixou cicatriz… Assim vamos nos constituindo, não só pela memória dos acontecidos, mas também pelas narrativas dos adultos. Freud dizia que não somos apenas o que pensamos ser. ‘Somos mais’ – diz ele – ‘somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos ‘sem querer’”, ressalta.

“Jacques Fux nos traz, em boa hora, essa reflexão freudiana traduzida num texto literário belíssimo, enxuto e, sobretudo, SIMPLES, essa qualidade dificílima de alcançar na aventura de escrever um livro. A cereja do bolo é o projeto gráfico e as ilustrações de Raquel Matsushita, que brinca com o claro-escuro o tempo todo, numa alusão à escuridão das não-recordações que impulsionam-nos à busca da claridade e do autoconhecimento”, conclui a editora.

Veja mais em Entrelinha Design.

Correio amoroso

Correio amoroso é uma antologia, organizada por Henrique Rodrigues, editada pela Oficina Raquel Editora, que reúne 20 cartas sobre paixões, encontros e despedidas, com projeto gráfico de Raquel Matsushita. A diversidade de cartas são assinadas pelos autores: ANA PESSOA, BRUNO RIBEIRO, CLOTILDE TAVARES, CRISTIANE SOBRAL, EDNEY SILVESTRE, HENRIQUE RODRIGUES, JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA, JACQUES FUX, JESSÉ ANDARILHO, LUIZA MUSSNICH, MARCELA DANTÉS, MARCELO MOUTINHO, MÁRIO RODRIGUES, MATEUS BALDI, NATALIA BORGES POLESSO, NATALIA TIMERMAN, OLÍVIA NICOLETTI, PAULA GICOVATE, RENATA BELMONTE e TAYLANE CRUZ.

O livro vem encartado numa sobrecapa em forma de envelope, que, ao ser desdobrada, se revela a forma de um coração.

A sobrecapa-envelope traz o poema Todas as cartas de amor são ridículas, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), mencionado no texto de apresentação do livro. Em alusão ao poema, a própria forma de coração do envelope traz, propositalmente, um pouco desse “ridículo” do poema.

A disposição do título denota um movimento, algo vivo (e por vezes por caminhos desencontrados) nas histórias de amor. As cores trazem algo pulsante no contraste do rosa com tons de azul e roxo.
A letra O do título, em repetição, cria um padrão no qual se encontram, metaforizados pela letra, pessoas em todo tipo de relacionamento (pares, trios, em grupo), além dos indivíduos que se encontram sozinhos.

Capa aberta com orelhas
página de rosto

No miolo, trechos do poema de Álvaro de Campos se transformam em aberturas de capítulo numa organização conceitual dos textos.

Lançamento no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. SAVE THE DATE

Mais no site da Entrelinha.

coleção Cornélio Penna

Coleção Cornélio Penna (Faria e Silva Editora) sai agora com seis volumes, sendo um deles, o caderno de desenho e pintura do autor.

Os desenhos de Cornélio foram utilizados para compor a capa de toda coleção. A paleta é composta por 6 cores que trabalham em sistema de duos nas capas: vermelho com ouro; azul com prata; bege com preto. O branco (do papel) e o preto também atuam como cor-base.

Os desenhos em traço preto e em negativo também foram utilizados nas páginas de rosto, assim como os originais datilografados com rasuras e correções do próprio autor.

A coleção foi impressa em uma cor no miolo (preto) em papel pólen, com exceção do livro Caderno de pinturas e desenhos, impresso em 4 cores em couchê fosco.

Foi criada uma luva (box), impressa em 3 cores, para acomodar todos os livros da coleção.

Para ver mais sobre a coleção, visite o site da Entrelinha Design.

Prêmio FNLIJ 2018

É com enorme alegria que comemoramos o prêmio FNLIJ 2018 para dois livros:

IMG_3378

  • Categoria Melhor projeto editorial e categoria Jovem:
    Catálogo de perdas
    , contos de João Anzanello Carrascoza; fotos de Juliana Carrascoza; capa e projeto gráfico de Raquel Matsushita. Sesi-SP Editora.
    Veja mais sobre o livro no blog e no site da Entrelinha.

 

IMG_5341

  • Categoria Literatura em língua portuguesa:
    Infâncias – aqui e além mar, poesias de José Jorge Letria e José Santos; ilustrações de Cátia Vidinhas e Guazzelli; capa e projetográfico de Raquel Matsushita. Sesi-SP Editora.

Para ver a lista completa dos vencedores, clique aqui.

Screen Shot 2018-05-10 at 11.22.29 AM

Histórias da gente

historias_foto1

Esta é uma capa que constrói a história de muita gente: dos vinte autores-garis, da Entrelinha Design pela capa, de Walcyr Carrasco pelo prefácio, da CBL, Infinito Cultural e Inova pela idealização do projeto.

Foram selecionadas vinte histórias escritas pelos agentes de limpeza da cidade de São Paulo. As fábulas urbanas nos mostram que eles cuidam não somente das ruas, mas também das pessoas que convivem nelas. Retratam o cotidiano, há humor, tristeza, luta, amizade, coragem e até história de amor. Os escritores, guerreiros quase invisíveis, se enchem de luz ao lançarem a obra na Bienal do Livro de 2016.

Na capa, o instrumento de trabalho do gari e do escritor se fundem num só. Por meio do objeto de trabalho nos adentramos nas histórias tocantes de cada um. As cores remetem ao uniforme dos agentes, usado com orgulho inclusive no dia do lançamento.

Uma honra fazer parte desse lindo projeto.

Para saber mais:
http://www.storybox.com.br/bienaldolivrosp/

mesas de design na bienal do livro

Na Bienal deste ano, vou mediar duas mesas imperdíveis sobre design de livros:

  • Quem é o designer?, com Pedro Inoüe e André Lima. (16h)
  • Quem é o capista?, com Victor Burton, Gustavo Piqueira e Luís Bueno. (19h30)

No Anhembi, sábado, dia 03 de setembro, no estande das Edições Sesc.

Vamos?

Bienal do Livro SP
Av. Olavo Fontoura, 1209
www.bienaldolivrosp.com.br
de 24/08 a 04/09/2016

bienal_flyer

o anel do nibelungo

2016-01-20 14.40.44

O anel do nibelungo é a mais importante ópera de Richard Wagner. Sua história forma uma teia das várias lendas dos povos do norte da Europa, que foram sendo construídas ao longo de milênios e se emaranham com outras lendas ocidentais. O livro, projeto gráfico da Entrelinha, é uma adaptação dessa obra escrita por Gabriel Lacerda, com ilustrações de Arthur Rackham (Edições de Janeiro).

2016-01-20 14.37.322016-01-20 14.38.192016-01-20 14.38.442016-01-20 14.39.282016-01-20 14.40.21

mulheres no poder

O livro Mulheres no poder (de Schuma Schumaher e Antonia Ceva, Edições de Janeiro), projeto gráfico da Entrelinha, aborda a participação das mulheres no âmbito da política, espaço de poder historicamente ocupado por homens. A obra apresenta a trajetória das mulheres no Brasil, que lutaram pela conquista do voto e ocuparam cargos no âmbito do Legislativo federal, no Executivo e Judiciário, abrindo novos caminhos para as mulheres.

2016-01-20 14.28.23

A capa foi impressa em duas cores pantone, cinza metálico aquecido pelo vermelho vivo. A medalha de prata é a honraria dada àquele que fica em segundo lugar, após o ouro. Esse segundo plano revela o espaço que as mulheres ocupam, ainda hoje, na esfera política.

2016-01-20 14.29.27

Na capa foi aplicada, de orelha a orelha, uma extensa tarja preta, uma alusão à censura sofrida pelas mulheres na participação da vida política. Num plano superior, por cima da tarja, em grandes proporções, encontra-se a palavra mulheres, revelando que o poder das mulheres na política tem a sua força reconhecida diante da censura e está acima dela.

2016-01-20 14.35.44

2016-01-20 14.30.15

2016-01-20 14.31.06

2016-01-20 14.33.07

2016-01-20 14.34.01

2016-01-20 14.34.48

Veja mais no site da Entrelinha.

 

manoel e adriana

“Penso que a harmonia é a arquitetura do nosso silêncio… que quase esconde o nosso júbilo e a nossa dor.” – Manoel de Barros

manoel_blog4

Entre essa frase encontram-se Adriana Lafer e Manoel de Barros. Uma amizade que fez nascer o desejo de realizar um livro em conjunto, cada um com seu olhar: Manoel com o texto e Adriana com as fotos.

Arquitetura do silêncio (Edições de Janeiro) é um projeto que reúne várias pessoas empenhadas em dar ao livro sua contribuição máxima. Edith Derdyk enxergou o livro como um objeto que proporciona uma liberdade de leitura quase infinita. Contribuição essencial para a criação do projeto gráfico, desenvolvido pela Entrelinha. A qualidade gráfica da impressão, assim como as imagens tratadas a dedo por Millard Schisler, estão impecáveis para esse projeto, que contou com um acabamento gráfico diferenciado.1  2a

2

O livro possui uma capa dura com duas lombadas: uma inteiriça e outra desdobrada para acomodar os dois livros separadamente. A capa dura tem também a função de grandes orelhas, nas quais se encontram as duas cartas manuscritas de Manoel para Adriana.

4a3Ao abrir a capa dura, há dois livros encartados, um de cada autor: de um lado, o livro de  fotos e de outro, o de poemas. A foto contínua aplicada em ambas as capas sugere, visualmente, a interação e o diálogo entre os dois autores. Assim como a primeira dupla de cada livro, onde há uma única foto que se extende de um livro para o outro. A partir daí, o leitor segue livre na sua leitura para criar suas próprias conexões.

3a8a9105Para ver mais, visite o site da Entrelinha.

 

 

expedição ao cotidiano dos dinos

Chegou da gráfica o livro Dinossauros – o cotidiano dos dinos como você nunca viu, de Luiz Eduardo Anelli e Celina Bodenmüller, com ilustrações lindas e divertidas de Biry Sarkis (Panda Books).

O projeto gráfico, desenvolvido pela Entrelinha Design, teve como referência um visual de diário de expedição, com papéis envelhecidos e colados no decorrer do livro. A linguagem verbal do texto é bastante próxima ao leitor, como se os autores estivessem contando uma viagem ao mundo dos dinossauros. O miolo do livro funciona como um fichário de anotações dessa aventura ao passado.

O projeto gráfico e as ilustrações coloridas cheia de humor, em sintonia com a leveza do texto, caracterizam o tom descontraído e ao mesmo tempo informativo do livro.

IMG_6596IMG_6597IMG_6598IMG_6599IMG_6600IMG_6601Veja mais no site da Entrelinha.