Um pequeno príncipe prosaico

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, com tradução de Ivo Barroso e ilustrações de Raquel Matsushita, sai agora pela Faria e Silva Edições.

Foi grande o desafio para ilustratar o novíssimo O pequeno príncipe. A primeira inspiração foi o próprio texto do Ivo que traduz de forma ainda mais afetiva e próxima a narrativa de Exupéry. A partir daí, explico no texto abaixo, que também se encontra no final do livro, o caminho para as ilustrações.

Eis a face de uma ilustração

Senti uma grande responsabilidade ao criar as imagens para este livro, cujas aquarelas de Antoine de Saint-Exupéry, tatuadas em nosso inconsciente, fazem parte da infância de muitas gerações. Como desenhar um novo pequeno príncipe no qual eu mesma pudesse acreditar?

A primeira providência foi ler Terra dos homens. Publicado em 1939, o livro narra as memórias de Saint-Exupéry quando foi piloto do correio aéreo francês. Minha suspeita de que O pequeno príncipe, se não fosse ficção, poderia ser um capítulo de Terra dos homens, se confirmou pelo modo particular, fascinante e sensível do autor em iluminar, por meio de aventuras literárias, o bem e o mal da natureza humana. Na última página do livro, numa viagem de trem, o narrador escreve:

“Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher, a criança, bem ou mal, havia se alojado e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens.” (tradução de Rubem Braga).

Fantasiei que o pequeno príncipe de Saint-Exupéry nasce no instante em que a luz da lâmpada ilumina o rosto daquele menino. Ao conceber o personagem, o escritor o protegeu, o educou e o cultivou. Responsável para sempre por tudo o que tenha cativado, Saint-Exupéry escreve a história do pequeno príncipe, publicada em 1943, tornando-se um clássico mundial.

A ideia de que qualquer um de nós pode ser um pequeno príncipe, um pequeno Mozart, uma rosa nascida por mutação, muito me intrigou. A potência dentro de nós, que se revela a cada dia, a cada noite dormida, a cada viagem de trem, a cada leitura de um livro, é a própria promessa de uma vida. 

Assisti a documentários para conhecer a infância de Mozart, assim como filmes biográficos do próprio Saint-Exupéry. Esse foi o terreno fértil que preparei para criar este pequeno príncipe: um personagem prosaico, que poderia habitar o corpo de qualquer criança. Os pequenos príncipes, os pequenos Mozarts, estão à nossa volta; inclusive pode ser você, caro leitor. 

Incorporei o uso do papel carbono amassado e passado a ferro, técnica que se aproxima esteticamente da gravura. Com um pouco de abstração nas imagens, convido a diferentes leituras, a liberdade para cada um interpretar a seu modo. Na capa, por exemplo, a rosa pode estar numa redoma ou sobre um planeta; na frente de uma pedra ou naquilo que você imaginar.

Juntos, os pequenos príncipes que vivem em nós e que não abdicam jamais de uma resposta depois de haver feito uma pergunta, criam leituras particulares desta obra repleta de metáforas, que instiga às mais livres reflexões.

Dedico este livro a Ionit Zilberman e a Rui de Oliveira, planetas que tanto amo habitar. 

Veja mais no site da Entrelinha.

2 thoughts on “Um pequeno príncipe prosaico

  1. Uma beleza, Raquel, Você vai ilustrar um livro para a Musa. Maravilhosa reinvenção. “Tudo é graça.”

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